A mente é real?

Dr. Sérgio Spritzer

Uma brincadeira que faço com meus alunos é desafiá-los a deslocar um objeto próximo com o “poder da mente”. Eles riem e me desafiam a demonstrar. Eu simplesmente pego o objeto e coloco em outro lugar. Eles contestam: assim é fácil; eu quero ver só com a mente. Aí eu é que contesto: o poder da mente é orientar o corpo para agir. E deu certo. Agora eu provoquei: vou levantar esse armário com a força da mente! É muito pesado, professor, não vai conseguir! Pedi a quatro pessoas para me ajudar e empurraram o armário de um lugar até outro. Eu só observando. Os alunos reclamaram: “Você só ficou olhando, não fez nada com a força da sua mente” e riram.

Eu argumentei: Vocês não notaram?

O que?

Eu solicitei a quatro pessoas aqui para moverem o armário de lugar.... eles concordaram. A minha mente que fez isso, com a colaboração da mente deles e da linguagem que oferece a possibilidade das nossas mentes se comunicarem. 

Os alunos param para pensar, afinal o que é a “força da mente”. A pergunta seguinte é onde fica a mente. Eles pensam, pensam e pensam sem conseguir uma resposta final. Não parece fácil de se localizar onde fica a mente como se ela fosse um objeto físico. 

Ainda hoje muito cientistas procuram a localização de um evento causal de uma mudança física, doença ou a razão da saúde e bem-estar. Está cada vez mais evidente que as relações locais de causa e efeito são apenas circunstanciais e dependentes de contexto. Eventos climáticos e orgânicos (biológicos) são “complexos” por serem redes de implicações variando de acordo com o modo de abordagem. Eventos mentais poderiam ser diferentes?

O pensamento linear, de como ir de A até B ou de A causando B, só vale para situações simples da realidade. Ir do quarto ao banheiro parece simples. Ir do quarto até o outro lado do planeta, é complexo. Quanto maior a amplitude e profundidade das nossas relações com o ambiente físico, biológico e social, maior a complexidade que precisamos em nossos modos de pensar, perceber e agir.

Precisamos aprender a pensar sistemicamente, como realidades compostas entre si, levando em conta diferentes causas em diferentes espaços e tempos, compostos entre si.

Nenhum deles precisa ser a causa ou ter em si, tomado isoladamente, a responsabilidade em uma realidade que na qual está implicado como outros fatores, componentes, pessoas e coisas.

Dissociar ao invés de compor os planos físicos, biológicos e mentais traz consequências graves em nossas vidas, fragmentando conhecimentos e experiências em áreas muito restritas que não se articulam ente si formando um todo compreensível. Com isso nos estressando e travando nosso fluxo pessoal, interpessoal e coletivo. Tanto a saúde, como a doença quanto o clima físico e social precisa ser pensado como ecologia ou equilíbrio entre diferentes sistemas. O desequilíbrio entre o modo como vivemos em sociedade, a ordem da natureza física e biológica tem feito pensar melhor as nossas vidas. A mudança climática implica em mudanças sociais, físicas, biológicas e pessoais de forma composta.

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