Dor Física e Psíquica: A dor da perda, a propósito do membro fantasma.

Atualizado: 11 de mar.

Sérgio Spritzer © 24 de maio de 2021.

Em neurologia a expressão “membro fantasma” é usada para denominar a experiência das pessoas que perdem um membro ou parte do corpo e continuam sentindo a sua presença, formigando, movendo-se, flexionando, tocando, como se estivesse mesmo ali. Mesmo sabedor que não está ali de fato esse membro, a experiência dele continua presente e pode estar associada a uma reação de dor no membro fantasma.

Uma dor, irreal, mas intensa. Uma das técnicas mais usadas para reabilitar a dor do membro fantasma é colocar um espelho de tal maneira que o sujeito se acostuma a olhar a “presença” (no espelho) do membro e isso ajuda sua imaginação a aceitar em planos subconscientes a existência dele, pois o sujeito percebe “fora de si” (forma da sua representação de unidade corporal) a existência “de verdade” desse membro. Esse exemplo coloca bem em evidência como a representação imaginária do corpo não é uma experiência intelectual nem racional. Ninguém explicando a perda vai fazer a mente do sujeito “elaborar” isso e negar a existência no imaginário não associado com o controle e comando verbal. Ele é ineficaz para dar conta disso. Esse exemplo clínico pode servir de hipótese para compreender em escala outras formas de perda, traumáticas, em níveis ditos mentais, que da mesma forma são difíceis de serem esquecidas, como a de entes queridos ou no fim de um casamento, namoro, ou mesmo na mudança do modo de vida consequente a perdas financeiras ou de mudanças de cidade ou pais. Até mesmo mudando a decoração ou retirando um móvel de um ambiente familiar as pessoas sentem uma diferença: um sentimento de perda se o objeto foi “incorporado” imaginariamente como desejado ou de alívio se for o contrário. Outras formas de trauma como invasão e posse de corpos e objetos percebidos como seus também podem ser melhor compreendidos através do exame da experiência de imagem corporal, aqui considerada não apenas no sentido de reconhecimento visual, incluindo as dimensões de experiências físicas, auditivas, olfativas e outras que estejam ainda desconhecidas, como a experiência visceroceptiva (a sensação do estomago, coração intestinos, bexiga, da postura, dos ossos e assim por diante). Uma das técnicas interessantes para melhorar a dor de traumas por falta de uma experiência é “espelhar” a sua presença de forma análoga ao que se faz com membros fantasmas. Tal presença sendo assimilada dentro do imaginário libertaria a pessoa da experiência real do evento objetivo da perda. Não se trata aqui de elaborar uma perda, pois isso implica em acomodar-se a ela e sim de redefinir uma presença agora em um plano imaginário e não mais objetivo, fisicamente tangível. Um exemplo de trabalho com luto é, em estado meditativo, diferenciar a presença da pessoa, objeto ou até mesmo parte do corpo em um plano imaginário e a presença dos mesmos existentes em um plano externo, objetivo, ainda que representados mentalmente nesse trabalho. Em outras palavras, em estado introspectivo a pessoa pode imaginar tanto realidades fora dela quanto dentro dela e lidar com ambas. O estado meditativo ou introspectivo, no qual o sujeito está mais propenso a perceber como se passa a fenomenologia imaginária íntima, é semelhante ao estado de quase sono e de quase despertar, podendo o sujeito encontrar-se entre um e outro, quando é possível então ouvir orientações verbais e responder com um plano de consciência interna ampliada em relação ao da consciência interpessoal, a chamada consciência do estado de vigília. Os dois campos de presença sendo percebidos como diferentes, permite ao sujeito conviver com eles de forma diferenciada. Um trabalho análogo é feito com situações de imaginação subjetiva que é vivida como real no mundo externo como no filme “Uma mente Brilhante” no qual um matemático ganhador de um prêmio Nobel John Nash, é tratado para conviver com as suas alucinações sabendo diferenciá-las com o tempo da realidade objetivamente evidente[1].

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