“Nunca parei para pensar nisso!”

Atualizado: 11 de mar.

©Sérgio Spritzer, 2021.


“Nunca parei para pensar nisso!” refletem as pessoas quando tem insights- introvisões- que mudam a sua forma de pensar e agir. Eu ironizo: E como seria pensar, sem parar? O cliente ri e queixa-se de que não tem tempo para pensar nas coisas que faz e isso tem prejudicado a sua qualidade de vida em praticamente todas as dimensões. Ele também percebe que os outros também passam a vida “correndo atrás da máquina”.


Todos se esforçam para oferecer uma vida melhor para si, as pessoas queridas de si, mas percebem que nessa jornada sofrem e perdem a própria qualidade do que fazem. Viver sem tempo para viver é o paradoxo da nossa civilização.


Há uma máquina imaginária na mente pessoal e coletiva que pressiona as pessoas a fazerem algo cada vez mais rápido e mais coisas em menos tempo. O resultado, obviamente, não pode ser o desejado.


“Just do it”, “compre já”; “inscreva-se já”; “últimas vagas”, “não deixe para a última hora” -um apelo paradoxal para fazer algo com um sentido de urgência, culpando a pessoa por não fazer sem pensar. Tudo parece ser urgente a ser feito e a relação humana, a interação com os fatos e com a experiência parece ficar por fora.


Pare para pensar. Um exame reflexivo pode nos fazer dar conta (parar e pensar) que estamos automatizados como robôs abobalhados consumindo o que há pela frente sem colocar a relação humana e a convivência em primeiro plano. Evidentemente que vivendo por esse viés, nós servimos de material de consumo para algoritmos de máquinas sendo imaginariamente elas que nos “dominam” e nos consomem. É um imaginário que, tal como uma profecia, se não examinado, se auto cumpre. Mas não precisa ser assim. O feitiço da criação das máquinas voltando-se contra o feiticeiro, ou a criatura voltando-se contra seu criador como nos filmes de ficção desde o monstro do Dr. Frankstein e da Revolta dos robôs de Isaac Asimov, do caçador de androides de Blade Runner etc. Mas isso diz mais de como estão as relações humanas do que a relação entre as máquinas. E isso pode ser diferente.


A interação humana tem ficado cada vez mais complexa e desafiadora desde o início da civilização. A cada revolução tecnológica segue-se uma revolução nas relações humanas implicando nosso modo de compreender a nós próprios e nossas relações inclusive com o próprio mundo.


Compreender as interações humanas e formar uma representação coerente da realidade ganhou escala quando entramos na sociedade industrial e mais ainda com a revolução da alta tecnologia representada pela internet. Desde o modo de perceber dentro da sociedade digital, parece iminente que as relações humanas perderão o seu lugar para os automatismos das máquinas. E mais ainda: que na melhor das hipóteses haverá máquinas inteligentes que tomarão o nosso lugar.


A ideia de que nós somos uma espécie de supercomputadores cibernéticos que se programam a si mesmos têm prosperado desde a “revolução das máquinas” como eu chamo a revolução industrial até a “revolução dos algoritmos” como chamo a da alta tecnologia digital, a chamada “era digital”, um imaginário social no qual vivemos até o momento.


Ela está dando lugar a outra revolução, também tecnológica, mas dessa vez por formas analógicas de pensar sustentadas, aí sim, por alta tecnologias de nova geração: Analógica. Sem analogias não é possível estabelecer relações de um modo humano. Certa vez perguntaram a um estudioso se não tinha medo de ser confundido com um computador. Gregory Bateson, no caso teria respondido: bom, se eu perguntar ao computador quem é você e ele me responder, “Vou lhe contar uma estória” então não terei nenhum receio em me identificar com ele como meu semelhante. Os semelhantes procuram se comunicar por analogias que ambos compreendam por ser justamente da experiência em comum.


Falamos muito da internet das coisas com o advento da velocidade de transmissão 5G e em breve da 6G. Mas ainda poucos têm o horizonte do que pode ser chamado de sociedade com tecnologia de comunicação, internet, voltada para as pessoas, para a interação humana. Uma internet das pessoas, não uma voltada para as coisas. Isso sim seria uma revolução da nossa consciência coletiva. Nela, o foco será, não no conteúdo das informações e no fazer instrumental, e sim nas pessoas e na qualidade das relações humanas. No fazer relacional.

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