O que está acontecendo entre nós?

© Sérgio Spritzer, 2021.


O que está acontecendo entre nós exclama quase em uníssono um casal em terapia. Entram em conflito por coisas aparentemente irrelevantes e sabem disso. Mas não sabem como definir nem como resolver a situação. O desafio é cada um perceber como imagina cada outro e então fazer saber um ao outro. depois representar a situação imaginada em forma comum, como se fossem com representações deles mesmos projetadas a sua frente interagindo um com o outro e verificando quais os padrões relacionais que lhes aparece em comum e quais padrões relacionais aparecem só no imaginário de um e não de outro.


Quando as pessoas passam a imaginar o que querem expressar e como o outro compreende o que expressam a relação muda. A mudança de cada um não garante a mudança da relação. Mas oferece possibilidades. Nem sempre isso resolve a demanda inicial de ambos. Mas reposiciona o que podem alcançar juntos ou não podem desde a forma como se percebem. Inicialmente as pessoas sejam elas pessoas em busca de terapia ou orientação de vida, casais, grupos e equipes, vem com demandas muito egoístas. Eu quero que eu.... Ou Eu quero que ele(a)...Ou ainda: Eu quero que eles (os colaboradores) ....


Raramente eu recebo pessoas querendo examinar de fato a a relação de si consigo e de si com os outros. A percepção da relação humana como um fenômeno é complicada. Culturalmente reduzimos o exame de uma relação ao exame de uma coisa física ou a de um certo comportamento físico de si ou de alguém mais. A maioria de nós não desenvolve um modo composto ou relacional de examinar a realidade. Somos culturalmente cindidos entre um dentro e um fora. E somos impelidos a nos colocar em um dos lados. Dentro ou fora. À direita ou à esquerda. Escolhas binárias. O problema como veremos [e que a gente não é binária. Aprendemos a ser assim para usar as máquinas que produzimos, mas não somos essencialmente assim. Ao contrario somos muito mais seres criadores de analogias, nem tanto mensurações classificações e categorias.


“Nunca parei para pensar nisso!” refletem as pessoas quando item insights- introvisões que mudam a sua forma de pensar e agir. Eu ironizo: E como seria pensar, sem parar? O cliente ri e queixa-se de que não tem tempo para pensar nas coisas que faz e isso tem prejudicado a sua qualidade de vida em praticamente todas as dimensões. Nota que os outros passam a vida “correndo atrás da máquina”.


... Correndo atrás de que máquina? pergunto. Os alunos presentes se entreolham e depois de conversarem um pouco concordam que todos, sem exceção, se esforçam para oferecer uma vida melhor para si, as pessoas queridas de si, mas percebem que nessa jornada sofrem e perdem a própria qualidade do que fazem, seja isso, trabalho, estudo, convivência, sono, alimentação e assim por diante. Eles não têm tempo para viver, vivendo.


Há uma máquina imaginaria na mente pessoal e coletiva que pressiona as pessoas a fazer cada vez mais rápido e mais coisas em menos tempo. Não podem parar para pensar o que querem e muito menos o que fazem. O resultado obviamente não pode ser o desejado.


Fazer pensar de forma coerente e poder tomar posições e conversar como fazer é a demanda urgente da era contemporânea, que nos pressiona a fazer sem pensar, como o “just do it”, o “compre já”; “inscreva-se já”; “últimas vagas”, “não deixe para a última hora” -um apelo paradoxal para fazer algo com um sentido de urgência, culpando a pessoa por não fazer Já, de uma vez isso. Tudo parece ser urgente a ser feito e a relação humana, a interação com os fatos e com a experiência parece fora desse tipo de cultura voltada para o consumo desenfreado e irracional.


Pare para pensar. Estamos perdendo a qualidade das nossas interações em favor de um consumo irracional e de examinando o fundo disso nos imaginamos vítimas de uma suposta interação entre máquinas. Um exame reflexivo pode nos fazer dar conta (parar e pensar) que estamos automatizados como robôs abobalhados consumindo o que há pela frente sem colocar a relação humana e a convivência em primeiro plano. Evidentemente que vivendo por esse viés, nós servimos de material de consumo para algoritmos de máquinas sendo imaginariamente elas que nos “dominam” e nos consomem. É um imaginário que, tal como uma profecia, se não examinado, se auto cumpre. Mas não precisa ser assim. O feitiço da criação das máquinas voltando-se contra o feiticeiro. Ou a criatura voltando-se contra seu criador como nos filmes de ficção desde o monstro do Dr. Frankstein e da Revolta dos robôs de Isaac Asimov, do caçador de androides de Blade Runner etc. Mas isso diz mais de como estão as relações humanas do que a relação entre as máquinas. E isso pode ser diferente.


A interação humana tem ficado cada vez mais complexa e desafiadora desde o início da civilização. A cada revolução tecnológica segue-se uma revolução nas relações humanas implicando nosso modo de compreender a nós próprios e nossas relações inclusive com o próprio mundo.


Compreender as interações humanas e formar uma representação coerente da realidade ganhou escala quando entramos na sociedade industrial e mais ainda com a revolução da alta tecnologia representada pela internet. Desde o modo de perceber dentro da sociedade digital, parece iminente que as relações humanas perderão o seu lugar para os automatismos das máquinas. E mais ainda: que na melhor das hipóteses haverá máquinas inteligentes que tomarão o nosso lugar.


A ideia de que nos somos uma espécie de supercomputadores cibernéticos que se programam a si mesmos têm prosperado desde a “revolução das máquinas” como eu chamo a revolução industrial até a revolução da alta tecnologia digital, a chamada era digital, que vivemos até o momento. Ela está dando lugar a outra revolução, também tecnológica, mas dessa vez por formas analógicas de pensar sustentadas aí sim, por alta tecnologias de nova geração.


Falamos muito da internet das coisas com o advento da velocidade de transmissão 5G e em breve da 6G. Mas ainda poucos têm o horizonte do que pode ser chamado de ou sociedade com tecnologia de comunicação, internet, voltada para as pessoas, para a interação humana. Uma internet das pessoas não uma voltada para as coisas. Isso sim seria uma revolução da nossa consciência coletiva. Nela, o foco será não nos conteúdos das informações e no fazer instrumental e sim nas pessoas e na qualidade das relações humanas. No fazer relacional.

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