Conheça o Projeto "Imagine": e aprenda como a mente funciona.

Atualizado: Jun 28




O trabalho da mente humana é construir compreender e lidar com modelos de realidade de si, de outros e das coisas. Existem realidades objetivas, subjetivas, internas ou externos em relação a certo referencial. Cada uma se relaciona com as outras de em modos que precisamos conhecer para viver plenamente cada momento e ter uma vida coerente.


Conhecendo como imaginamos o que se passa quando lidamos com realidades ditas objetivas e subjetivas você pode aprender o que realmente interessa e faz diferença e o que não interessa.


O que se segue é um caminho possível para conhecer o que você não imagina que imagina.


1. O Nascimento da Imaginação:

A imaginação é a função mental que nos permite representar a realidade. Ela tem uma história no desenvolvimento humano.


Quando nós humanos éramos tribos nômades esparsas no planeta, nossa vida era ir sempre adiante em busca de novos recursos e pouco “parávamos” no sentido reflexivo, o “parar para pensar” e imaginar a si mesmos e o mundo em maior extensão e profundidade. O mundo do andarilho era uma linha, mais ou menos sinuosa e o espaço tempo era cíclico e não se estendia a uma representação.

Quando nos assentamos como comunidades agrícolas, começamos a imaginar modos de viver juntos em um espaço por definido em conjunto, demandando posturas, atitudes e comportamentos que criamos justamente para a convivência em um espaço físico comum, compartilhado com mais ou menos hierarquias, mas de toda forma autodeterminado e não mais determinado pelas forças da natureza. Começa a aparecer um ambiente propriamente humano diferenciado do ambiente da natureza. O mundo começa a ser conhecido a partir dessa convivência e não desde fora direta, via “natureza”. O próprio conceito de natureza começa a ser imaginado. A linguagem floresceu e deixou de ser predominantemente instrumental (homo habilis) para aparecer como meio de reflexão (homo sapiens).


Nascem e crescem as primeiras civilizações.


Desenhos de pessoas e animais fixados nas cavernas e pedras ao redor indicam que ali existia não só uma pessoa, mas um conjunto delas, interagindo entre si e com o mundo além de si, caçando ou contemplando o mundo. As mãos pintadas com pigmentos vermelhos indicavam: aqui estou eu, que desenha isso, entre outros como eu. Um primeiro movimento de reflexão.


A vida em comum cria espaços e tempos além daqueles “dados” pela natureza. O espaço e o tempo criado entre si, tem instrumentos de medição de tempo como o relógio, de moradias, de iluminação, meios “artificiais” de circulação de água, de pessoas, veículos, animais domesticados, princípios, leis e códigos compartilhados.


Nasce um senso de propriedade particular e dos modos particulares de se comunicar e conviver.


Formam-se comunidades dentro de comunidades. Nelas, havia que se compor para conviver, trabalhar, sobrando um certo tempo para fazer por lazer e pensar para experimentar.


O imaginário surge com o esteio, o fundamento da vida em comum.


Muito além da tela plana: A relação humana em tempos digitais.


A terra dos andarilhos nômades, era linear e superficial: só deixavam rastros pois não tinham tempo para parar e pensar. Mesmo depois, usando a fala e a escrita, as letras e palavras imitam a forma do andarilho ao se produzirem e se reproduzirem de forma linear, com se as palavras andassem sobre linhas em uma superfície plana...


O falante e o escritor evocam representações mentais em vários espaços/tempos de si, de outros, de coisas e de relações entre eles, não só codificando como também transformando as relações codificadas em novos imaginários em forma de estórias, contos, narrativas e descrições de mundo que podem ser percebidas, medidas e refletidas.


Ao usar superfícies planas aprendemos a projetá-las aí outras dimensões. Assim vieram os croquis, as planilhas. A matemática e a geometria ganharam destaque e nos últimos séculos da civilização adveio o método científico usando um processo de “observação sistemática”: Delimitando o que se observa e repetindo a observação, nas mesmas condições de forma controlada, a experimentação. Os resultados são medidos e o que se repete não é aleatório e isso, usando a matemática, pode calcular o que se repete de forma é interessante e o investigador imagina quais as relações que pode “tirar” de tal realidade experimental.


Mas quando as realidades são observadas em uma rede de eventos afetando-se mutuamente? O método de observação e experimentação já não pode ser aplicado linearmente como na ciência clássica.


O desafio da imaginação contemporânea é transcender os métodos lineares das ciências tradicionais e oferecer, como a física quântica relativística se propõe, métodos não lineares e não binários de pensar a realidade humana. Ela de fato nunca foi linearizável. Toda tentativa de medir a realidade mental não tem oferecido resultados coerentes. A inteligência humana, por exemplo, não é o que se mede dela e sim o que se imagina dessa medida. E isso é limitado as condições da medição, o que não leva muito longe a investigação.


Com uma quantidade e qualidade de informações literalmente impossível de ser imaginada, temos “terceirizado” aos logaritmos, ferramentas matemáticas mediadas por alta tecnologia de processamento de informação, a função de oferecer dados que seriam “a” realidade que percebemos ou que deveríamos perceber. É um truque do nosso próprio imaginário acreditar ilusoriamente que a sua obra seja uma “inteligência artificial”. É como Michelangelo pedir para a estátua de David falar e acreditar que ela realmente vai responder.


O problema que aparece na definição -confusa- de inteligência artificial é que as informações aportadas pela linguagem matemática precisam ser decodificadas pelos nossos sentidos e contextualizada ao contexto da interação na qual estamos implicados para fazer sentido. Isso implica a experiência humana. Sem ela as fórmulas de nada valem.


“Fazer sentido” é o resultado da mobilização de um processo psicobiológico de imaginar a experiência interacional “dando certo”, isto é, correspondendo as nossas expectativas. Os logaritmos em si mesmo não buscam fazer sentido; são fabricados para que isso aconteça. Imaginá-los tendo uma inteligência é artificial, no sentido de que eles, por mais complexos que possamos construí-los só fazem sentido a quem os produziu. O imaginário segundo o qual, um dia os equipamentos terão autonomia para desejar e conviver entre si dispensando a raça humana é análogo à fantasia das crianças ao dormirem imaginando que seus brinquedos sairão do armário e vão brincar enquanto ela dorme, voltando a serem inanimados pela manhã quando ela acorda. Teremos oportunidade de explorar esse interessante tema em outros textos."

Sergio Spritzer © | junho de 2021