Quem somos nós.

Atualizado: 11 de mar.

© Sérgio Spritzer, 2021


“O que está acontecendo entre nós?” Exclama quase em uníssono um casal em terapia. Cada um sabe o que está acontecendo consigo e tem interpretações do que deveria ou poderia acontecer com o outro. Mas ambos não fazem ideia do que está acontecendo entre eles. Isso é geralmente a forma como chegam as demandas de terapia e consultoria.

Só recentemente as pessoas têm percebido que não adianta cuidar apenas da própria vida. Não vivemos sozinho e não se trata de cuidar da vida do outro e sim de termos uma interação de qualidade entre a gente.

Esperamos individualmente, cada um espera que algo aconteça e sai diferente. Esperamos que o outro se mova em uma direção e isso não acontece. Quando conjugamos nossas expectativas, o que é radicalmente diferente de alguém impor as dela sobre nós, aí sim compomos realidades.

Quanto mais civilizados somos e mais tecnologias intermediam as nossas relações, mais o imaginário de que se é e do quem o outro é, fica identificado com uma representação codificada, como por exemplo: a função, posição social, religião, profissão, gênero e não como uma pessoa singular no aqui e agora. O desafio é examinar a relação além das estereotipias das regras sociais que achatam os padrões relacionais induzindo a generalizações abusivas tais como os preconceitos de gênero, de raça, estereótipos profissionais e culturais.

Em sociedade o papel que cumprimos como filhos, netos, pais, mães, amigos, colegas, determinam a nossa identidade. Ela não é tão dada naturalmente pelos nossos genes. Não temos ideia de o quando nossa identidade que achamos tão autêntica é derivada de uma composição de imaginários socialmente determinados, desde os primeiros tempos de vida.

A compreensão de que cada um é ponto de convergência de uma relação com tantos outros pontos, como um nós de uma rede de relações humanas muda a compreensão do eu como o da caveira solitária imaginada por Hamlet, de Shakespeare que se pergunta segurando uma caveira: “Ser ou não Ser, eis a questão˜. Essa é uma pergunta do indivíduo para seu próprio umbigo. Somos ou não somos uma espécie humana com um senso de coletividade, eis a questão mais ampliada.

Se somos pontos de uma rede de implicações entre vários outros, temos a responsabilidade de nos posicionar em face disso. Não estamos sós com o mundo a nossos pés. Sendo redes em redes, a mudança de cada um não garante a mudança da relação.

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