Quase todo mundo pensa que o passado está atrás e o futuro, adiante.


Mas isso é uma arbitrariedade.

Vejamos os aimarás, um povo originário da região andina da América do Sul: eles concebem a associação entre o tempo e o espaço de maneira diferente.

Em aimará, a palavra “nayra” significa passado mas também à frente, à vista. E a palavra “quipa”, que significa futuro, também indica atrás. Ou seja, na linguagem aimará o passado está adiante e o futuro, atrás. Sabemos que isso reflete à sua maneira de pensar, porque eles expressam essa relação também com o corpo. Os aimarás estendem os braços para trás quando se referem ao futuro, e para a frente quando aludem ao passado. Embora, a priori, isso nos soe estranho, quando eles o explicam parece tão razoável que temos vontade de mudar tudo; eles dizem que o passado é a única coisa que conhecemos, aquilo que os olhos veem, e está, portanto, à frente. O futuro é o desconhecido, aquilo que os olhos desconhecem, e por isso está às nossas costas. O fluxo do tempo, para os aimarás, sucede caminhando para trás, e com isso o incerto, o futuro, se transforma no relato do passado, plenamente visível.

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